Nem só de mazelas e queixas vivem as salas de aula comandadas
por educadores brasileiros. Uma seleta amostragem destes pioneiros,
que trabalham em locais e culturas tão variados como o interior
gaúcho, o Ceará e os Estados Unidos, demonstra que o próprio Brasil
pode servir de inspiração para o restante do país superar
dificuldades históricas.
— O enorme atraso do nosso ensino, que não faz jus à
maioria dos demais indicadores do país, exige novas formas de
promover a educação. Mais do que exigir isso somente dos
professores, é fundamental que se mudem mentalidades dos gestores e
da própria sociedade — afirma o consultor de projetos de
tecnologia educacional Carlos Seabra.
Confira exemplos de quem já faz educação com mentalidade
nova.
A receita de Igrejinha: todos avaliam todos
Em uma escola municipal de Igrejinha, no Vale do Paranhana,
alunos costumavam se envolver em algazarras que por vezes
resultavam em desentendimentos. A solução não veio da direção, de
um orientador educacional ou de um professor. O diagnóstico do
problema partiu do vigia da escola, graças a um sistema de
avaliação que incluiu a cidade gaúcha em uma lista de boas práticas
elaborada pelo Ministério da Educação.
A cidade de 31,6 mil habitantes implantou um modelo de
monitoramento institucional em que todos avaliam todos, apontam
falhas e revelam caminhos por onde o sistema pode progredir. Por
meio de questionários entregues a pais, alunos, professores,
funcionários de escola e gestores, a secretaria municipal consegue
identificar problemas, buscar soluções e desatar nós que possam
limitar o desenvolvimento dos alunos.
Em um desses questionários, um vigia apontou que a bagunça cotidiana era agravada pela demora dos professores em chegar às salas de aula. A razão? Levava muito tempo para preencherem o livro-ponto. Identificada a razão do transtorno, o município comprou relógios automáticos que diminuíram a burocracia e o tempo em que os alunos ficavam sem supervisão.
Em um desses questionários, um vigia apontou que a bagunça cotidiana era agravada pela demora dos professores em chegar às salas de aula. A razão? Levava muito tempo para preencherem o livro-ponto. Identificada a razão do transtorno, o município comprou relógios automáticos que diminuíram a burocracia e o tempo em que os alunos ficavam sem supervisão.
— É um exemplo simples de como o sistema em que todos se
avaliam funciona. Assim, podemos identificar problemas e melhorar
sempre - observa a secretária municipal da Educação, Liége Brusius,
uma das criadoras do sistema juntamente com as assessoras Sigrid
Izar Becker e Adriana Odete Koch dos Santos.
Por meio dos questionários, elaborados com perguntas diferentes
para pais, alunos ou professores, por exemplo, é possível medir a
satisfação de cada grupo com as condições de ensino, apontar
deficiências de infraestrutura ou falhas de metodologia. O
questionário é distribuído a cada três anos — com um índice
de devolução superior a 90%. No intervalo entre as edições da
pesquisa, em um ano são propostos planos de ações para corrigir os
defeitos apontados e, no outro, esses planos são colocados em
prática.
Os efeitos positivos incluem uma maior integração dos pais às
escolas e melhoras no desempenho dos estudantes - desde 2005, o
Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) subiu de 4,7
para 6,1 nas séries iniciais.
— Muitas escolas se queixam de que os pais não participam.
Derrubamos esse mito. Eles só não participam se são chamados apenas
quando há alguma reclamação, e no horário de trabalho. Quando eles
sentem que podem contribuir, participam — resume a
secretária.
Lista de material: cadernos, lápis, livros e...
tablet
Tem o tamanho aproximado de um caderno, mas nele cabem palavras,
desenhos, sons, movimentos, jogos e tudo que se possa imaginar. O
tablet, espécie de prancheta digital que roda aplicativos e permite
conexão à internet, vem conquistando espaço como ferramenta
didática nas salas de aula do mundo inteiro - inclusive em escolas
gaúchas.
Em Porto Alegre, o Colégio Israelita começou um projeto-piloto
no ano passado envolvendo a Educação Infantil. O sucesso - e o
interesse dos alunos mais velhos - foram tão grandes que neste ano
a iniciativa foi estendida para todos os mais de 700 estudantes.
Foi criado até mesmo um núcleo especializado em que os próprios
alunos do Ensino Médio desenvolvem aplicativos, como jogos
pedagógicos, no turno inverso às aulas.
— Ainda é um projeto em fase inicial, mas que já vem
apresentando bons resultados — afirma a diretora-geral da
escola, Mônica Timm de Carvalho.
A responsável ressalta, porém, que a tecnologia de ponta não substitui a leitura do bom e velho livro, as explicações dos professores e outros recursos tradicionais.
A responsável ressalta, porém, que a tecnologia de ponta não substitui a leitura do bom e velho livro, as explicações dos professores e outros recursos tradicionais.
— O tablet é um elemento a mais, que não podemos ignorar
porque faz parte da vida de crianças e adolescentes. Para eles, a
tecnologia é uma coisa natural — sustenta Mônica.

O tablet é ferramenta para a sala de aula
Foto: Félix Zucco
O tablet é ferramenta para a sala de aula
Foto: Félix Zucco
Como o uso do tablet varia conforme o aplicativo, ele pode ser
utilizado das mais diversas formas. No segundo ano do Fundamental,
por exemplo, crianças usam uma espécie de quebra-cabeças em que têm
de deslocar barras coloridas até que uma se encaixe em um local
pré-determinado. Assim, treinam o raciocínio lógico e a coordenação
motora. Por ser portátil, leve e prático, permite que várias
crianças se reúnam em volta de um e testem hipóteses em grupo para
resolver problemas, por exemplo.
Para utilizar a ferramenta da melhor forma, os professores do
colégio começaram a receber orientações específicas na universidade
corporativa da escola - onde os educadores participam de formação
complementar. Dos 89 educadores do Israelita, cerca da metade já
está fazendo uso dos 35 equipamentos disponíveis em sistema de
revezamento.
Professores treinados na sala de aula
Um dos problemas da educação brasileira, conforme especialistas,
não está nas salas de aula das escolas, mas nas classes onde
estudam os próprios professores para se graduarem. Deficiências na
formação dos educadores, principalmente pela ausência de maior
treinamento prático, acabam se refletindo em dificuldades de ensino
nas salas de aula dos colégios. Para suprir essa lacuna, um projeto
pioneiro apoiado pela Fundação Itaú Social e aplicado em 10 escolas
públicas de São Paulo criou um método de formação em serviço.
A proposta é treinar um professor mais experiente, com
reconhecida capacidade, para atuar como tutor de outros educadores.
Além de ajudar a planejar aulas e atividades por meio de reuniões
periódicas, o tutor acompanha algumas aulas do colega e sugere
mudanças que podem melhorar o desempenho.
Entre as falhas corriqueiras estão hábitos como ficar muito
tempo de costas para os estudantes, não reservar tempo para eles
falarem, não direcionar perguntas à turma, entre outros pequenos
pecados didáticos que só podem ser flagrados em plena atividade. O
problema é que nem todos os educadores gostam de ser observados
trabalhando.
— Há uma dificuldade inicial, porque a entrada em sala é
vista como "intromissão". Mas o tutor não é um fiscal. Aí a
resistência acaba superada porque os professores estão ávidos por
apoio — afirma Isabel Santana, gerente da Fundação Itaú
Social.
Sobral, Ceará: o mérito revoluciona o
ensino
Há cerca de 10 anos, uma cidade cearense ostentava índices
vergonhosos na educação básica: praticamente a metade dos alunos
concluía a segunda série sem conseguir ler um texto, uma frase, uma
palavra. Hoje, 97% das crianças estão aprendendo a ler no prazo
adequado. A cidade promoveu nesse período uma revolução baseada na
valorização do mérito, que teve efeitos amplos e vem chamando a
atenção de especialistas.

Em Sobral, seleção de diretores foi modificada
Foto: Prefeitura de Sobral/Divulgação
A implantação de uma série de medidas fez com que a rede da cidade de 188 mil habitantes obtivesse o segundo melhor desempenho municipal de todo o Nordeste pelo mais recente Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (média de 7,3), e quase zerou o abandono escolar nas séries iniciais.
Em Sobral, seleção de diretores foi modificada
Foto: Prefeitura de Sobral/Divulgação
A implantação de uma série de medidas fez com que a rede da cidade de 188 mil habitantes obtivesse o segundo melhor desempenho municipal de todo o Nordeste pelo mais recente Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (média de 7,3), e quase zerou o abandono escolar nas séries iniciais.
Graças a esses feitos, virou exemplo em um documentário lançado
recentemente pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento
Econômico. A receita nordestina apresenta ingredientes pouco comuns
na educação brasileira: os diretores deixaram de ser escolhidos por
votação ou indicação política e passaram a ser nomeados por meio de
concursos.
— Criamos uma seleção rigorosa, com prova escrita,
avaliação comportamental e entrevista — revela o secretário
municipal de Educação de Sobral, Julio Cesar da Costa
Alexandre.
Além disso, foi reduzido o número de escolas do município para
otimizar recursos, os professores passaram a receber cursos
frequentes de formação e bônus de R$ 800 para a aquisição de um
computador para uso próprio. Todo esse processo é completado pela
realização de duas avaliações anuais.
— Fazemos uma prova por semestre para avaliar o desempenho
dos estudantes, das escolas e de toda a rede — conta o
secretário.
Alunos viram inventores
Já pensou entrar em uma escola onde a sua principal tarefa é
sonhar com uma invenção e tentar transformá-la em realidade? Esse
tipo de colégio, onde aulas convencionais e decoreba não têm vez,
já existe: três estão nos Estados Unidos, uma na Rússia e outra na
Tailândia. Mas o responsável por lançar um dos mais instigantes
projetos de revolução educacional dos últimos anos é
brasileiro.
Professor na universidade americana de Stanford, Paulo Blikstein
é o responsável pelo projeto FabLab@School (FabLab é abreviatura em
inglês para "laboratório de fabricação").
O projeto é instalar, nos colégios, laboratórios onde é possível
fabricar praticamente qualquer coisa, com auxílio de computadores,
máquinas de corte de materiais a laser e outros equipamentos.
Pode-se criar um veículo automotor com sensor para evitar choques,
por exemplo, ou um sistema para desligar lâmpadas automaticamente e
poupar energia.
— Nos nossos laboratórios, o aluno tem liberdade para
criar, mas percebe que, para criar algo interessante, precisa
entender a ciência e a engenharia por trás da ideia, então você tem
o melhor dos dois mundos — vibra Blikstein.
Fonte - ZERO HORA
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